sábado, 15 de outubro de 2016

Cidade dos Fantasmas

Título: Cidade dos Fantasmas
Título Original: Break my heart 1000 times
Autor: Daniel Waters
Editora: Jangada
Ano: 2016
Páginas: 315
Tradução: Denise de Carvalho Rocha
Livro: Skoob
Sinopse:
Após uma catástrofe que matou milhões de pessoas, uma fenda se abre entre as dimensões e as cidades passam a ser assombradas por fantasmas. Verônica não passa um dia sem ver um fantasma, mas eles não a assustam. Porém, os fantasmas estão ganhando força e começam a aparecer com muito mais frequência. Ela e seu colega de classe Kirk, investigam por quê e descobrem uma história sinistra: August, seu professor de história, não se conforma que a sua filha não voltou do mundo dos mortos como fantasma e acha que para isso acontecer ela precisa primeiro se apossar de um corpo, e que Verônica é a pessoa certa para abrigar o espírito da filha. Mesmo que esteja errado, que mal há em criar mais um fantasma, se já existem tantos!

Depois de assistir um filme de terror você tem medo de esbarrar em algum fantasma pela casa?

E se você esbarrasse com um fantasma todo dia no mesmo horário na esquina da sua casa? E se encontrasse mais alguns no caminho até o trabalho? Seria estranho se deparar com outros dois enquanto estivesse tomando um café no horário de almoço? Talvez corresse pra se internar se fosse assombrado por mais cinco espectros na volta pra casa?

A princípio você teria vários picos de taquicardia, realmente. Mas uma hora você se acostumaria, assim como todos fizeram depois do Acontecimento.

Essa era a nova realidade de milhares de pessoas em todo o país. Elas chamam de Acontecimento a catástrofe que abriu uma fenda entre o mundo dos vivos e dos mortos, levando instantaneamente milhões de pessoas à morte. Desde então, os fantasmas habitavam o mesmo espaço, mas não de uma forma aterrorizante. Algumas pessoas os chamavam apenas de imagens, pois repetiam um padrão de movimentos sempre em determinado horário. Apareciam, realizavam alguma tarefa que haviam de fato feito na vida real, e desapareciam até o dia seguinte naquele horário.

Todo mundo é assombrado por alguma coisa, ele pensou

O pai de Veronica, por exemplo, aparecia à mesa da cozinha às 7 horas. Lia as seções do jornal que o interessava, sorria e sumia. Era como uma projeção. Ele surgia, apresentando todas as características de ser real, mas não era possível tocá-lo, como se fosse apenas uma miragem. A repetição de atitudes levava as pessoas a pensarem: porque aquele momento? O que tinha de tão especial em sentar para ler o jornal? Porque de tantas memórias, aquela era tão marcante ao falecido?

O Sr. Pescatelli, mais conhecido como Peixe pelos alunos, divagava bastante sobre o assunto nas aulas e afirmava existir quatro tipos de imagens. A de crise, a de rotina, a de emoção e a associada ao local da morte. A de rotina remetia ao hábito da pessoa executar determinados passos diariamente, a de emoção estava relacionada a um momento extremamente feliz e genuíno do falecido, e a ligada à morte era a mais trágica, os fantasmas revivendo os segundos antes de sua morte dia após dia. A de crise, por sua vez, representava que algo de dimensão grande e pior estava por vir, como uma premonição. Se toda aquela porção de fantasmas que surgira com o Acontecimento significassem uma crise... A coisa ia ficar bem feia.

Nessas aulas, o Peixe discursava também sobre as aparições em Hiroshima e Nagasaki, dados que foram encobertos na época, mas que poderia trazer respostas à situação que estavam vivendo. Veronica, por outro lado, temia que seu pai fosse uma imagem apenas de rotina. Todo dia, ela e sua mãe iam à cozinha acompanhar os poucos minutos que ele retornava a elas. Sua mãe estava devastada e emagrecendo cada vez mais, mas não largava mão daqueles pequenos instantes, não aceitaria perdê-lo ou esquecê-lo. Veronica também evitava perder a visita do pai, por mais que aquilo começasse a incomodá-la, mas Brian, o fantasma que aparecia no seu banheiro poucos minutos antes do pai, estava começando a intrigá-la. Ele transmitia um calor e sensação que ela jamais pensou ser possível. Nenhum outro fantasma era capaz disso. O que havia de tão diferente nele? Qual era a misteriosa história do antigo morador de sua casa?

Depois das visitas matinais, Veronica vai para a escola acompanhada da amiga Janine. Janine um dia já foi corajosa e valentona, mas após o Acontecimento, ela se tornou uma tremenda medrosa. Não suportava ver um fantasma na frente que passava mal. Veronica sempre estava a postos para ajudar a amiga, mas era difícil quando no caminho da escola existia Mary Greer, um fantasma que se erguia do chão e seguia até a casa do Sr. Bittner, o professor estranho de história delas. Havia boatos de que ele a assassinou, mas nunca encontraram provas, e todos esqueceram a suspeita, restando somente o velho e conhecido poema:

GUS DEIXOU MARY
PENDURADA NUMA ÁRVORE
A-S-S-A-S-S-I-N-A-D-A
PRIMEIRO VEM O SANGUE
DEPOIS O CASAMENTO
DEPOIS A AMARGURA NUM CARRINHO DE BEBÊ

Na escola, Veronica tinha fama de ser rodada, mas Kirk não se importava. Ele ficava admirado com toda a sua força, uma energia diferente da maioria das meninas. Aliás, não era culpa de Veronica não conseguir se apegar. Passava um tempo com eles, enjoava, e ia para o próximo. No entanto, depois que Veronica conta ao seu grupo de amigos a respeito dos fantasmas em sua casa, Kirk procura o Sr. Pescatelli solicitando um trabalho de crédito extra, pensando que ele lhe daria conselhos que o ajudariam a saber o que falar para Veronica. Só que o Sr. Peixe entrega uma câmera a Kirk e o manda gravar todos os fantasmas que vir, anotando a hora em que apareceram e que sumiram, descrevendo o que eles estavam fazendo e qual a sensação que aquilo transmitia, o que aquele momento deveria ter significado ao fantasma. Com isso, Kirk vai aos lugares mais horripilantes atrás das histórias mais sinistras: escolas, fábricas, hospitais, e arrasta Veronica consigo. Romântico, né?

Através daquele estudo, não só Kirk e Veronica irão se aproximar, como também vão se envolver com as histórias dos fantasmas e descobrir que eles mesmos podem estar em perigo. E a ameaça está mais próxima do que eles imaginam. Seria normal pensar mais nos mortos do que nos vivos? Seria normal temer mais os vivos do que os mortos?



Esse livro é simplesmente espetacular. A proposta é assustadora por si só, mas acredito que o objetivo não seja botar medo no leitor. A princípio, pensamos que a realidade pros vivos será horrorosa, que mal conseguirão sair de casa, mas eles não tem outra escolha a não ser se adaptar e, com isso, quando nos damos conta, já estamos habituados àquele mundo bizarro. Já pensou? Chegar na sua mãe e dizer “mãe, tem um fantasma lá no quarto” como se dissesse “mãe, tem uma barata lá no quarto”.

Os personagens foram desenvolvidos de forma magnífica. A tristeza da mãe de Veronica nos faz refletir. Quando um ente querido morre, nós ficamos de luto, um luto que às vezes dura bastante tempo. Mas e se ele estivesse ali pelo resto dos dias? Não ele ele, mas o espectro dele, só a imagem pra matar a saudades e promover angústia pelo fato de não estar realmente lá. Simplesmente não dá pra se despedir da pessoa. E esse sofrimento dela comove.

A história é narrada em terceira pessoa pela Veronica e pelo vilão, e também em primeira pessoa pelo Brian. Acho que dá pra tirar conclusões sobre o vilão pela própria sinopse e logo nas primeiras páginas, mas não quero tirar a graça, então não vou comentar muito sobre ele, só que é um psicopata claramente perturbado pela perda da família. Mesmo anos depois, ele continuava desestabilizado, e o Acontecimento lhe trouxe esperanças.

Veronica é forte e determinada, mas me irritou um pouco no final. Sua teimosia era sem fundamento e a insistência no “ainda não sei se é amor” faz qualquer leitor revirar os olhos. Kirk certamente foi meu personagem favorito, disputando com o Brian, e ele era tão respeitoso e paciente lutando pela vida da Veronica que me fez pensar que ela não merecia ele, mas enfim.

O melhor do livro com certeza é o pano de fundo. Eu aaaaaaaaaaamo histórias com fantasmas e a forma como foram descritos foi excepcional. O Sr. Peixe era obcecado pelo Acontecimento e era um dos únicos que se dedicava a descobrir o mistério por trás do evento. Ele cria classificações para as imagens e faz os alunos refletirem sobre o que essas aparições representam, o que elas estão tentando dizer. Algo importante de ressaltar, aliás, porque eles estão criando forças. Um número maior de imagens vem aparecendo frequentemente, e onde eles irão parar assim? Um mundo com mais fantasmas do que almas vivas?

Uma obra maravilhosa, que merece ser lida por todos os amantes de terror e mistério. A editora jangada, parceira que cedeu o livro, também está de parabéns com a edição incrível!

Nota: 5



Sobre mim: Carolina Rodrigues, 21 anos, mora em Santos e cursa faculdade de Biomedicina. Adora dançar e ir pra praia, mas o que a faz realmente feliz é poder passar um dia inteiro lendo, vendo séries, escrevendo histórias ou ouvindo música.

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