terça-feira, 27 de junho de 2017

Confissões de um Adolescente Depressivo

Título: Confissões de um Adolescente Depressivo
Autora: Kevin Breel
Editora: Seoman
Ano: 2017
Páginas: 232
Livro: Skoob
Sinopse:
Aos 19 anos, Kevin Breel tornou-se um fenômeno mundial com sua TED Talk. O mundo nunca tinha visto um garoto dessa idade falar sobre um tema tão pesado quanto a depressão suicida e com tamanha leveza, inteligência e consciência. Ele conta como um adolescente saudável e supostamente feliz, passou a lutar diariamente contra a depressão e o desejo de se matar. Este livro é um guia para sobreviver à depressão ou entender melhor quem a enfrenta na adolescência, escrito por alguém que atravessou a escuridão e agora lança mão do seu estilo único para trazer luz e esperança à vida de milhões de jovens e adolescentes.

Kevin Breel nasceu e cresceu em uma pequena ilha na costa oeste do Canadá. Sua casa possuía grandes janelas por onde era possível enxergar da rua o seu interior. Mas o que as pessoas viam e o que de fato acontecia eram duas coisas extremamente diferentes.

Kevin não teve uma infância exatamente feliz, tampouco triste. Ele era uma criança feliz, mas carente de amor. Seus pais dormiam em quartos separados, e desde aquela época, aos seis anos, ele sabia que algo naquela atitude estava errada. Eles não brigavam, mas também não se importavam um com o outro. Sua mãe era bondosa e amável, enquanto seu pai vivia rodeado de latas de cerveja. Ele não era um homem ruim, apenas triste. E já a irmã de Kevin, quatro anos mais velha, era dona de uma alma enérgica e, por mais que Kevin a adorasse, ela não parava em casa. Inclusive a cachorra não parecia ir muito com a cara de Kevin.

As lembranças são um lance interessante e imperfeito. Eu sempre ficava imaginando quem eram aquelas pessoas que escreviam sobre si mesmas e por que um dia puseram na cabeça a ideia de fazer isso. Visto de fora, parece algo de um egoísmo inacreditável. Mas, interiormente, é um pouco como arrancar o coração do peito e grudá-lo no papel. Mais do que isso, quando você pega a pá para começar a escavar o passado, percebe que talvez o mais estranho da vida seja ver quanto você se lembra pouco dela, pelo menos com clareza. Os segundos viram minutos e os minutos viram horas e as horas viram dias, e quando você vê a vida já escorreu por entre os seus dedos. Quando tentamos retroceder até os momentos mais significativos da nossa vida, constatamos simplesmente quanto eles estão fragmentados pela memória e pelo abandono do tempo.

Devido ao caos que cercava seu lar, Kevin esperava ansioso pelo dia em que começaria a frequentar a escola, imaginando que seria um bom lugar para interagir e ter os momentos alegres que não tinha em casa. Mas acontece que em poucos anos Kevin passou a desejar mais ficar em casa do que ir para o colégio e aturar o bullying que sofria diariamente. Por muito tempo, Kevin relutou a contar à mãe o que acontecia, por vergonha e por não querer chamar a atenção, mas um dia ele precisou dar um basta e pedir para mudar de escola.

O final do ensino fundamental foi de longe uma das melhores fases da vida de Kevin, e tudo graças à amizade que criou com Jordan McGregor. Poucas pessoas compreendiam Kevin, e uma delas, ou a maior de todas, na verdade, era Jordan. Ele se tornou o melhor amigo de Kevin, assim como a família dele, animada e carinhosa, se tornou a dele. Kevin passava mais tempo na casa de Jordan do que na sua própria, e eram as horas mais felizes de seu dia. Passavam noites assistindo filmes de terror com outros amigos, rindo e zoando.

Muito embora eu não deixasse de receber amor em casa, havia partes de mim que se sentiam vazias. Eu queria ganhar a afeição das outras pessoas por nenhuma razão que não fosse provar a mim mesmo que conseguiria. Provar que eu era digno de amor. Provar que talvez não fosse um perdedor. É exaustivo ser tão duro consigo mesmo. E até pior que tudo isso, no entanto, talvez fosse o pensamento de que eu obteria alívio quando encontrasse pessoas que me aceitassem. Eu não sabia que o mais importante era derrubar os muros altos da aversão por mim mesmo e realmente me aceitar.

E as coisas que estavam indo tão bem, de repente desmoronam. Kevin perde Jordan, e é como se todo o seu mundo viesse abaixo. Kevin entra no ensino médio logo em seguida, e sua adolescência parece apenas vazia sem Jordan ao seu lado. Kevin é chamado pela diretoria para ir à sessões com Allan York, que sabe da tragédia e tenta ajudar o garoto. Kevin vai à algumas sessões, mas é tudo muito difícil pra ele. Allan aconselha que Kevin escreva em um diário todos os seus pensamentos e desabafos, e Kevin acha a ideia ridícula, mas sua irmã acaba descobrindo e lhe dá um diário. Mesmo relutante, Kevin aceita o presente, apenas por ter vindo da irmã. Por um tempo, as sessões funcionam, até que Kevin perde o controle, passa a fugir das aulas com frequência, e a solução que encontra é mudar de escola. Toda a preocupação de Allan com ele é tanto tocante quanto perturbadora a Kevin, e ele não consegue lidar com a situação.

Depois disso, tudo vai por água abaixo. Kevin nem sabe mais porque se sente tão triste. Se pela perda de Jordan, se pela autoestima zerada, se pela falta de vontade de viver. Ele passa dias encarando o teto, sem força para levantar. Em alguns dias esquece de tomar banho e de se alimentar. Chegou a passar dois dias sem comer. Pesava 77 quilos com quase 2 metros de altura. Era capitão do time de basquete, mas ninguém parecia entendê-lo. Ele se sentia sozinho, e aquela solidão era esmagadora. Os dias passavam, as semanas, e ele se enterrava cada vez mais no próprio vazio. Kevin sabia que estava sofrendo uma depressão profunda, mas não tinha forças, tampouco vontade de reagir. Ele não via sentido na vida. Se irritava com a felicidade alheia, e cada vez mais os pensamentos obscuros sobre suicídio predominavam. Ele não queria morrer, apenas se livrar daquela sensação horrível. E a cada vez que ele pensava na ideia, pensava que finalmente poderia se libertar, ele se via inclinado a se suicidar.


Talvez essa seja a raiz de tudo que veio depois. Talvez todos os meus problemas e a minha dor estivessem vinculador à minha solidão. A verdade era que eu não me sentia amado. Eu me sentia, isso sim, como uma mercadoria defeituosa, tirada da linha de produção da fábrica humana cedo demais e ganhando nada, exceto arranhões, machucados e vergonha, desde então.


E de fato ele chegou bem perto de tentar. O que o salvou foi a carta de despedida à mãe e à irmã. Toda a sua mágoa e rancor foram despejados nas folhas, e quando terminou e se sentou na cama, prestes a tomar um pote de comprimidos, ele se sentiu leve e chorou compulsivamente. Ele não queria morrer, tinha certeza disso. Só tinha encontrado a forma mais simples de sair daquela situação, mas não a certa. E depois, quando resolveu contar para a mãe o que quase tinha feito, a mãe chorou e ligou para o doutor Betts, que foi um herói e exemplo em sua vida.

Kevin ainda sofre de depressão. Não é algo que se cura de um dia para o outro. Kevin tem dias bons e dias ruins. Dias que são mais pesados do que outros, mas pelo menos, uma hora a sensação de vazio vai embora. A depressão não é uma escolha. Ela chega sem aviso, e pode ser destrutiva. Procurar ajuda é essencial.



A grande maioria de nós leitores temos um certo de pré-conceito com livros de auto-ajuda. Acontece que Confissões de um adolescente depressivo é muito mais do que isso. É um relato íntimo e detalhado de Kevin sobre o que sentiu em um número grande de dias de sua vida. É literalmente uma confissão. Kevin confessa ao final da obra o quão difícil foi para ele contar sua história e relembrar dos seus piores dias. Por todo o seu esforço, esse livro merece ser lido e relido diversas vezes. Para respirarmos fundos, para pensarmos mais no próximo, para enxergar o sofrimento e se dispôr a ajudar.

Kevin faz reflexões sobre sua vida, e admite que em retrospectiva, ele não acha que existam motivos o bastante para a sua depressão. Pensando na vida de outras pessoas, das que passam fome e nem mesmo tem onde morar, ele sabe que tem uma vida boa. Ele tem família, amigos e uma mente sã. Ele é grato por tudo isso, mas infelizmente a depressão não é algo controlável. A tristeza de uma pessoa pode ser tanta que ela para de encarar as coisas boas da vida e só enxerga as ruins. A falta de amor e a solidão são grandes fatores que levam uma pessoa a esse caminho, dentre tantos outros. Cada um conhece os seus limites, as suas necessidades, os seus sentimentos, e ninguém pode ser julgado por isso.

Todos os dias, o mundo exterior tenta exercer sua influência um pouquinho mais, formando nossas crenças sobre a felicidade. É quase sempre uma coisa sutil, ínfima. Assim como quando você pergunta às pessoas como elas vão e elas na verdade nem pensam a respeito da pergunta antes de responder “tudo bem e você?”. Ou como todos aqueles clipes gravados em casas noturnas maravilhosas, com luzes coloridas e pessoas com uma aparência melhor que a sua. Todo mundo parece feliz. Todo mundo à sua volta quer ser feliz. Era como se houvesse dias em que a sociedade gritava para eu ser feliz. Como se eu fosse a única pessoa que não estava ouvindo.

Kevin Breel possui uma escrita extraordinária. Fiquei completamente envolvida em suas palavras, e não apenas pelo tema. Ele descreve tudo o que passou com clareza e exatidão, sem deixar de lado as partes mais fortes. Ele se comunica de uma forma que às vezes esquecemos que ele é tanto o narrador quanto a pessoa dentro das páginas. É como se ele estivesse contando a história de outra pessoa, conseguindo se manter próximo de sua realidade, e ao mesmo tempo distante, refletindo sobre o seu passado como um espectador. Fiquei encantada com a sua escrita, sua sinceridade e sua coragem em expôr todas as suas camadas mais profundas. E certamente toda a sua coragem terá resultado, tanto em conscientizar as pessoas sobre a gravidade da doença, quanto em ajudar todos os que estejam passando pelo mesmo.

O livro é curto, com apenas dez capítulos, e entre cada capítulo existe o desenho de uma folha de bloco de notas com o que ele denominou como "um toque para mim mesmo", que costuma ter relação com tudo o que lemos no capítulo anterior. Em momento algum o relato se torna cansativo. Na verdade, eu devorei o livro, com o coração apertado em todos os momentos difíceis para Kevin, e desejando a cada página que avançava que ele conseguisse sair dessa e melhorar.



A edição da editora Seoman, nossa parceria, também ficou sensacional. A capa tem um aspecto de diário, que remete ao diário que Kevin teve que escrever durante suas sessões. O amarelo na capa claramente está ligado ao setembro amarelo, mês da campanha à prevenção do suicídio, e eu, que saí usando marcadores pra destacar quase o livro inteiro, tive que usar de amarelo.

Acho que essa questão do setembro amarelo, inclusive, é bem complexa. Uma palavra errada pode significar o estopim para uma pessoa que sofre com depressão, mas ao mesmo tempo, uma palavra amiga pode fazer toda a diferença. Por isso, acima de tudo, temos que lembrar que não podemos bancar os psicólogos e achar que estamos salvando a pessoa nessa situação. Temos que mostrar que estamos do seu lado, e incentivar a pessoa a procurar ajuda profissional. Isso propiciou Kevin a seguir em frente, um dia de cada vez.

Seja boa ou ruim, todos nós estamos vivendo uma história. O problema das histórias é que as boas nunca acabam do mesmo jeito que começaram.


Hoje, ele é comediante e se tornou famoso pelas TED Talks que fez, que são vídeos onde as pessoas espalham ideias boas pelo mundo. Atualmente, Kevin tem vinte e três anos, e embora não esteja completamente recuperado, ele segue em sua luta. Uma das cenas que mais me marcou foi ao final, onde ele conta que houve um incêndio no prédio onde morava, e ele entrou em desespero para escapar. Foi quando se deu conta de que não queria mesmo morrer, e isso lhe trouxe um alívio imenso.

Eu já sabia que ia gostar de Confissões de um adolescente depressivo, mas não fazia ideia do quanto. Um relato íntimo, sensível e tocante de Kevin Breel, um autor extremamente talentoso e batalhador que, sem dúvida, ainda tem muita coisa boa para viver.



Nota: 5


Sobre mim: Carolina Rodrigues, 22 anos, biomédica. Adora dançar e ir pra praia, mas o que a faz realmente feliz é poder passar um dia inteiro lendo, vendo séries, escrevendo histórias ou ouvindo música.

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