quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Jantar Secreto

Título: Jantar Secreto
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2016
Páginas: 360
Livro: Skoob
Sinopse:
Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles.

Dante, Miguel, Hugo e Leitão moram em Pingo D’água, uma cidade pequena do Paraná. Os quatro são melhores amigos desde infância e mal acreditam quando todos passam em faculdades públicas do Rio de Janeiro. Os quatro, então, encontram o apartamento perfeito, com quartos individuais, e se acomodam no novo canto só deles. Dante cursa administração, Miguel medicina, Hugo gastronomia e Leitão sistema de computação.

Com o passar do tempo, muita coisa mudou para os quatro. Agora adultos e formados (exceto Leitão, que desistiu do curso e passa o dia inteiro trancado no quarto, gastando dinheiro com besteira e engordando cada vez mais), eles encaram a dificuldade de arranjar um emprego. Hugo pula de restaurante em restaurante, inconformado por desprezarem o tamanho talento que ele tem. Miguel faz estágio num hospital, e é de longe o mais sensato do grupo. Já Dante, nosso narrador e protagonista, trabalha numa livraria, já que não consegue trabalho na área que se graduou.

O aniversário de Leitão se aproxima, e os três resolvem dar de presente a ele uma prostituta. Cora é a única que aceita a oferta e, embora a intenção fosse dar somente uma noite de prazer ao amigo, as visitas se tornam constantes. Leitão é o responsável pelo pagamento do aluguel, e não demora para que os três amigos descubram que o dinheiro do aluguel está indo, na verdade, pras visitas de Cora. Eles recebem então uma notificação de que estão devendo quase 30 mil reais de aluguel e, se não pagarem dentro de duas semanas, serão despejados.

Embora a vida no Rio de Janeiro não estivesse à mil maravilhas como eles imaginavam que seria, eles sabiam que voltar para Pingo D’água não era uma opção. Eles não tinham trabalho fixo, muito menos na área que desejavam, tinham pouca grana no bolso, e agora um problemão desse na cabeça. Todos se revoltam contra Leitão, enquanto ele não está nem aí, sem um pingo de arrependimento. Dizia que havia encontrado o amor de sua vida.

Eles se reúnem e resolvem pensar numa maneira de arranjar o dinheiro. Mas como conseguiriam tanto em tão pouco tempo? Era impossível.

Até que Leitão se lembra do enigma da gaivota, contada por Dante. A história do homem que come a carne da própria mulher, achando que era de gaivota. Existe um site chamado JantarSecreto.com, onde as pessoas montam jantas exóticas e cobram fortunas aos convidados. Então, porque eles não poderiam montar um jantar desses com carne humana? A princípio, todos consideram a ideia uma loucura, mas aos poucos, vão se encontrando sem saída além daquela. Miguel é o único que se opõe. Ele implora pra que os amigos desistam, diz que vai dar tudo muito errado, mas ninguém dá ouvidos a ele. A ideia é instigante, e eles precisam do dinheiro.

Então eles escrevem uma lista com planos para arranjar o corpo. Como o transportariam? De onde pegariam? Qual o corte perfeito? Será que aquele jantar daria certo? Ou será que os denunciariam?

Era pra ser apenas um jantar. Dez pessoas à mesa, vendadas, saboreando da carne mais deliciosa que existe. Eles querem mais.

Então... Fico tentando lembrar sem sucesso do momento em que me dei conta de que a Antônia era o frango que eu comia no almoço, que a vaquinha de pelúcia era a mesma do bife acebolado, que os porcos do quintal estavam na linguiça que eu adorava nos churrascos. Entende o que eu quero dizer? É uma mudança e tanto na vida de alguém, e eu deveria lembrar, mas não me vem nada. Isso me perturba, tira meu sono. Quando é que as crianças descobrem que aquilo que a mãe delas coloca no prato é tipo a Peppa Pig? Quando é que percebem que assamos e comemos a Galinha Pintadinha? E como é que elas não ficam indignadas com isso?

Eu fiquei atordoada com esse livro. Esse é o efeito de todas as obras do Raphael Montes, na verdade. Lembro como fiquei hipnotizada com Dias Perfeitos. É uma mistura de “Uau” com “Eu realmente tô lendo isso?”.

Dante, Hugo, Miguel e Leitão possuem personalidades bem diferentes. Ao decorrer do livro, várias situações os distanciam, e aí você começa a pensar se eles sobreviveram a tantos anos de amizade por conveniência, por terem somente um ao outro desde sempre, porque olha... Ali não tem amigo de verdade, não.

Inicialmente, Dante é um personagem carismático, mas que aos poucos vai perdendo essa característica e se tornando num covarde. Com tudo o que acontecia ao seu redor, ele não tomava uma atitude. Sofria em silêncio, tomava decisões impetuosas sem comunicar àqueles que supostamente ele confiava, e depois de certo ponto, ao invés de correr pra parar a crueldade que ocorria, ele preferia ficar chapado. Muito chapado. Deu vontade de balançar ele e mandar ele reagir. Mas, coitado... Independente do que ele fizesse, o final absurdo de tão surpreendente que é te mostra que não adiantaria nada. Dante estava destinado a se ferrar legal.

O Hugo você pode substituir por uma incógnita. Um personagem falso, egoísta, que no começo era de um jeito, e se transformou completamente. Tudo pelo sucesso.

Miguel pode parecer fraco à primeira vista, sempre chorando e querendo pular fora, mas como eu disse antes, foi o mais sensato. Devia ter seguido a intuição.

Leitão é o pior de todos. Um personagem folgado, acomodado, e mais egoísta ainda. Se eu já não ia com a cara no começo, no fim só podia odiar mesmo.

Com os quatro principais apresentados, dá pra perceber que é basicamente cada um por si, mas nem sempre foi assim. Apesar das discordâncias, eles se davam bem, mas quando a barra fica preta, é aí que as pessoas se revelam.

O ser humano é mesmo muito hipócrita. Sem dúvida, a maioria das pessoas que assinava aquela lista comia carne de porco, vaca e frango. A verdade é que você não precisa comer carne humana para incentivar atos monstruosos, basta curtir um bife e uma linguiça que já está dando sua contribuição para o horror.

Então nós entramos no assunto da carne humana. Sinceramente, acho que esse não é um livro recomendado para quem tem estômago fraco. Todos os livros do Raphael são impressionantes, mas esse conseguiu me deixar enjoada. O corte da carne a partir do corpo cadavérico é descrito de forma rica e detalhada. Já a preparação da carne, junto dos temperos, chega a dar água na boca, até que você para e pensa que é de carne humana que estão falando, e aí você fica com nojo. Mas porque? Porque, se você come a vaca, o porco, a galinha, o pato, sem pensar no sofrimento dele? Sem pensar que são seres que uma vez estiveram vivos, e passaram pelo mesmo procedimento que aquela carne humana descrita está passando?

A obra traz muitas reflexões sobre o assunto. Dante acompanha desde a chegada do corpo até a carne sendo servida, então ele luta entre a náusea e o desejo de experimentar. Ele reluta bastante até se dar por vencido, e ele pensa justamente nesses pontos. Nós compramos a carne já embalada, a preparamos, sem problemas. Mas se você visse a morte do bicho que está no seu prato, será que você comeria?

O Raphael não quis forçar ninguém a ser vegetariano, viu. Pelo contrário. A carne é citada e comida várias e várias vezes durante a história. Ele só traz reflexões que são verdadeiras. Eu não sou vegetariana, mas queria MUITO parar de comer carne. Odeio pensar no sofrimento dos animais, até porque eles não foram criados pra servirem de comida. Todos ficam assombrados com a ideia de comer uma carne humana, mas dão de ombros pra carne animal. Somos todos hipócritas.

Achei bem legal os pontos levantados pelo Raphael. Não somente quanto à carne, mas quanto à realidade política que o Brasil vive. Ele critica sem pudor as pessoas que esbanjam dinheiro, as que conseguem emprego com tanta facilidade através do QI, enquanto outras ralam, se formam, e não arranjam nada.


Uma coisa interessante na obra foi o uso de prints de conversas no WhatsApp. Talvez você entorte o nariz ao imaginar, mas a conversa é tão engraçada que nem me incomodou. Já temos livros em formato de e-mail e diário, então não é exatamente uma surpresa termos outros meios digitais nas páginas. Pode parecer estranho, mas ficou legal, principalmente porque o Raphael não abusou da sorte. A conversa é curta e única. O método não foi usado mais vezes, então foi como se ele arriscasse pra ver a reação das pessoas. Eu gostei, mas por não ter sido exagerado.

A escrita do Raphael é fluida, inteligente e com um toque de humor negro. O suspense é instigante de um jeito que não dá pra largar o livro até descobrir no que o jantar vai dar. Podem se preparar pra um final a la Dias Perfeitos. Um livro que te deixa atônito e vidrado na mesma proporção.


Nota: 5


Sobre mim: Carolina Rodrigues, 21 anos, mora em Santos e cursa faculdade de Biomedicina. Adora dançar e ir pra praia, mas o que a faz realmente feliz é poder passar um dia inteiro lendo, vendo séries, escrevendo histórias ou ouvindo música.

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