terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A Garota Alemã

Título: A Garota Alemã
Título Original: The German Girl
Autor: Armando Lucas Correa
Editora: Jangada
Ano: 2017
Páginas: 408
Tradução: Denise de Carvalho Rocha
Livro: Skoob
Sinopse:
Baseado numa história real, A Garota Alemã é um romance magistral. A bordo do famoso transatlântico St. Louis, uma garota de 11 anos e 936 refugiados judeus fogem da Alemanha Nazista. Berlim, 1939. Hannah Rosenthal, de 11 anos, tinha uma vida de contos de fadas. Ela passava as tardes no parque com seu melhor amigo, Leo Martin. Mas, agora, as ruas estão cheias de nazistas. Eles vislumbram uma esperança para sair desse inferno: o St. Louis, um transatlântico que pode propiciar aos judeus uma travessia segura para Cuba. Mas logo as circunstâncias da guerra mudam e o navio que era sua salvação agora parece ser a sua sentença de morte. Nova York, 2014. Anna Rosen, ao fazer 12 anos, recebe um envelope misterioso de Hannah, uma tia-avó que criou o pai falecido. O conteúdo do envelope inspira Anna e a mãe a viajarem a Cuba para conhecer Hannah e descobrir a verdade sobre o trágico passado da família.

Em 1939, Hannah Rosenthal descobre como o mundo pode ser feio.

Aos 11 anos, ela mora com seus pais em Berlim, onde nasceu. Os pais são donos de um prédio residencial, e agora, no meio da Segunda Guerra Mundial, se vêem obrigados a sair às pressas do lugar que sempre lhes pertenceu. Os vizinhos, antes simpáticos e agradáveis, agora chamam Hannah e sua família de sujos, impuros. A mãe, sempre bem-vestida e cuidada, está prestes a desmoronar. O pai felizmente consegue vistos, autorizações e passagens para que eles viagem junto dos refugiados em direção a Cuba, onde irão se abrigar após gastarem todas suas finanças como garantia da viagem.

Hannah não iria sem seu melhor amigo, Leo Martin, e por sorte seu pai também conseguira uma passagem para ele e seu pai. Leo e Hannah são grudados, e Leo diz que eles irão construir uma família em Cuba. Ele é um garotinho extremamente alegre, elétrico e bem informado, sempre prestando atenção nas conversas dos adultos para depois contar para Hannah as novidades.

A mãe de Hannah não gosta que a filha ande pelas ruas, mas Hannah não se importa, contanto que esteja com Leo. Juntos, eles se sentam e escutam as notícias no rádio de um Ogro. Os ogros são todas as pessoas consideradas limpas, as que os desprezam e os olham com nojo. De um dia para o outro, a família de Hannah passou a ser desvalorizada, e embora ela não compreenda muito o motivo daquilo, ela sabe que Berlim não é mais seu lar. Sabe que precisam fugir e, acima disso, precisam sobreviver.



Em 2014, Anna Rosen descobre que possui uma tia distante, logo quando achava que estava sozinha no mundo.

Seu pai morrera antes mesmo de saber de sua existência. Sua mãe ia lhe contar justo no dia em que as torres gêmeas desabaram com ele dentro. Depois disso, sua mãe foi perdendo cada vez mais as forças até não sair mais do quarto. Anna prepara seu café e leva para ela todos os dias, mas sente que ela não irá aguentar por muito mais tempo, então quando recebe uma carta da tia que criou seu pai, ela se enche de felicidade. Após a chegada da carta e de um determinado susto, a mãe de Anna recupera a energia aos poucos e topa viajar com Anna para Havana, onde encontrarão Hannah, uma senhora de 87 anos que possui muitas histórias a contar para Ana, embora nem todas sejam felizes.


Eu já esperava me emocionar com A Garota Alemã, mas não tanto quanto me emocionei. A história é dividida em três partes e os capítulos são narrados de forma intercalada entre Ana e Hannah, cada uma contando sua história até que as duas se conectam. A obra é baseada em fatos reais sobre o famoso transatlântico St. Louis que transportou 936 judeus refugiados da Alemanha Nazista e somente 4 conseguiram permissão para entrar em Cuba. O resto foi enviado para outros países e eventualmente caçados pelos alemães através da guerra.

Além do terror já conhecido causado pelo Holocausto, a obra de Armando é narrada pelos olhos de uma criança, de forma que encaramos a realidade vivida pela família de Hannah através da inocência e da ingenuidade. Hannah e Leo sabem que correm perigo, mas não são capazes de entender por completo o motivo, o que fizeram para isso. E ainda assim, os dois são personagens fortes que são obrigados a se tornarem adultos muito rápido. Embora a infância ainda esteja presente em suas vidas, a perda e a dor os fazem crescer e enxergar o mundo de outra forma. É de apertar o coração o momento em que Hannah percebe a gravidade da situação, quando se dá conta que sua família nunca será a mesma, que parte de sua vida foi destruída pela guerra, e que não há nada ao seu alcance a fazer.

Armando conseguiu unir dois eventos trágicos em um único livro. Assim como milhares de pessoas que perderam parentes e amados no ataque de onze de setembro, Anna perdera o pai que nunca chegara a conhecer. Ela guarda em seu quarto a única foto que possui dele, e conversa com o pai todos os dias. Assim como no relato de Hannah, encontramos aqui uma menina inocente que reza para que a mãe enfim descanse em paz, por não suportar mais seu sofrimento. Ela não tem amigos, e a carta da tia Hannah traz a esperança que ela precisava para continuar prosseguindo, assim como Anna é vista por Hannah como a última esperança da linhagem Rosenthal. Ela torce para que enfim alguém da família possa ser feliz. A guerra tirou tudo de Hannah, mas trouxe Anna, uma sobrinha da qual mal tinha conhecimento.



Apesar das suas 400 páginas, A Garota Alemã é uma leitura ágil, dinâmica e muito bem descrita. Armando soube medir com cuidado suas palavras, de forma que os acontecimentos eram compatíveis com o visto e interpretado por uma criança, e ali, através dos olhos delas, víamos como o futuro era duvidoso e quanto sofrimento ainda as aguardava.

Em nota, o autor diz que resolveu escrever o livro pois poucos tem conhecimento acerca do navio e do destino cruel que tiveram os refugiados, o que mostra a importância de conferir a incrível obra que ele criou. Acompanhar a trajetória de Hannah me deixou extremamente comovida, e mesmo sabendo que a história ao menos dela era fictícia, pensar que existiram de verdade 900 histórias dentro daquele navio que não tiveram um final feliz dói mais ainda. Nas últimas páginas, o autor incluiu fotos e uma lista com os nomes de todos os refugiados presentes no navio. A edição da Jangada também ficou espetacular e a capa super condizente.

Com uma narrativa direta e muito bem articulada, Armando convida todos a conhecerem o St. Louis e seus passageiros. Junto de Anna, se preparem para a história bela e ao mesmo tempo devastadora que Hannah tem a contar.
Nota: 5


Sobre mim: Carolina Rodrigues, 22 anos, biomédica e autora do livro O Poder da Vingança. Adora dançar e ir pra praia, mas o que a faz realmente feliz é poder passar um dia inteiro lendo, vendo séries, escrevendo histórias ou ouvindo música.

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