domingo, 31 de janeiro de 2016

Fragmentados


Título Original: Unwind
Autor: Neal Shusterman
Editora: Novo Conceito
Ano: 2015
Páginas: 320
Livro: Skoob
Sinopse:
Em uma sociedade em que os jovens rejeitados são destinados a terem seus corpos reduzidos a pedaços, três fugitivos lutam contra o sistema que os fragmentaria.

Unidos pelo acaso e pelo desespero, esses improváveis companheiros fazem uma alucinante viagem pelo país, conscientes de que suas vidas estão em jogo. Se conseguirem sobreviver até completarem 18 anos, estarão salvos. No entanto, quando cada parte de seus corpos desde as mãos até o coração é caçada por um mundo ensandecido, 18 anos parece muito, muito longe.

O vencedor do Boston Globe-Horn Book Award, Neal Shusterman, desafia as ideias dos leitores sobre a vida: não apenas sobre onde ela começa e termina, mas sobre o que realmente significa estar vivo.


Em um mundo Pós-guerra Civil, existe a Lei da Vida, criada para por um fim na Guerra que matou milhares. E, segundo a Lei da Vida, as pessoas não podem abortar da maneira como conhecemos o aborto, mas podem escolher abortar retroativamente os filhos quando eles têm entre 13 e 18 anos, ou melhor, podem Fragmentar seus filhos. Dessa maneira, o adolescente não morrerá, tecnicamente, e todos os seus órgãos, incluindo os membros, serão doados.

Então, um dia, você estará andando na rua e irá cruzar com alguém com o braço de seu filho. Ou os olhos dele.

- Como é que alguém pode aprovar leis sobre coisas que ninguém conhece?
- Fazem isso o tempo todo – diz Hayden. – É isso que a lei é: palpites instruídos sobre o que é certo e errado.

Narrado em terceira pessoa, temos 3 personagens principais, que intercalam os POVs ao longo do livro: Connor, Risa e Levi.

Connor é um adolescente um tanto desajustado, que sempre acaba indo parar em brigas e, um dia, sem querer, descobre que seus pais assinaram o termo para mandá-lo para a Fragmentação. E mais: marcaram uma viagem com seu irmão mais novo para o dia seguinte. E claro que Connor não se entregaria tão fácil assim para os Juvis, a "polícia" da Fragmentação. Então ele resolve fugir.

Risa é uma adolescente órfã que sempre viveu em uma Casa Estatal, pianista, e descobre, após uma apresentação de piano que não foi perfeita, que irá para a Fragmentação, pois o Estado já está cheio de crianças órfãs e apenas as perfeitas permanecem.

Levi é um menino que acabou de fazer 13 anos. Sua festa de aniversário é uma comemoração e uma despedida. Vindo de uma família religiosa, com 10 filhos, Lev foi o escolhido desde antes de nascer para ser o Dízimo. Assim, sabendo a dádiva que é ser um escolhido para ser um dízimo, vai com a consciência tranquila para ser entregue ao Campo de Colheita, onde ocorrem as fragmentações.

As histórias se cruzam porque, ao fugir, sendo perseguido pelos Juvis, Connor acaba causando um acidente na estrada, no ônibus onde estava Risa, que foge, e sequestra Lev, que estava no carro com os pais. Os três se juntam e fogem pela floresta, numa tentativa de encontrar algum lugar para se esconderem e saber o que fazer em seguida, pois precisam sumir até os 18 anos, quando, após, o Estado não poderá fazer mais nada com eles.

- Pelo menos, morrer é melhor do que ser fragmentado. Ou não é? Vamos fazer uma enquete: você preferiria morrer ou ser fragmentado?

A partir daí, muitos personagens nos são apresentados e muita coisa acontece durante a fuga deles. Muita coisa mesmo, coisas que eu nem esperava! Durante todo o livro, somos postos para pensar sobre a Fragmentação. Existem milhões de quotes que eu gostaria de colocar aqui. O autor não só põe em discussão assuntos como o aborto, como também a religião, a política e a natureza humana.

- A única razão de eu estar vivo é que aquela pessoa foi fragmentada.
- Então... - diz Connor - A sua vida é mais importante que a dela?

Mais para frente, eles acabam encontrando um "refúgio" de Fragmentados, no meio do deserto, escondido, mas mesmo assim, muita coisa ainda parece não se encaixar, principalmente quando algumas pessoas somem e outras recebem propostas de emprego e nunca mais são vistas.
E é nesse refúgio que conhecemos o Almirante, um ex-militar que comanda o refúgio e se demonstra solidário com os fragmentados... até certo ponto, pois ele ainda tem uma postura de militar e limites são impostos.

- Este lugar não é um refúgio, é um mercado de escravos. Por que ninguém vê isso?
- Quem disse que não veem? O caso é que a fragmentação faz a escravidão parecer uma coisa boa. É sempre: de dois males, o menor.

Eu não tenho muitas palavras pra descrever tudo aqui. Duvidei de muitos personagens - do General, em específico, e acabei chorando com o final. Fiquei pensando muitas coisas. Ver o desenvolvimento de Lev e seus pensamentos, como um dízimo, me deixaram louca! Principalmente porque eu sei que as pessoas são capazes de coisas assim. De mandar seu filho para ser fragmentado em nome de Deus, e conseguir colocar a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila.
Sobre a parte do aborto, eu acho melhor não entrar muito aqui, porque eu sei que é um assunto que gera discussão. Mas a fragmentação me fez pensar, e eu até comentei com a minha mãe. Para os países que possuem pena de morte... A fragmentação seria uma opção?

Outra coisa que é posta em discussão, é a Alma e a Consciência, por conta da Fragmentação. Se a pessoa não morre, então o que acontece com a Alma e a Consciência dela? Se expande, para alcançar todos os lugares por onde seu corpo está espalhado?

Se não houvesse fragmentação, haveria menos cirurgiões e mais médicos. Se não houvesse fragmentação, eles voltariam a tentar curar as doenças em vez de só substituir órgãos ruins pelos de outras pessoas.

Achei interessante, inclusive, que um dos capítulos o autor resolveu começar com um pedaço de notícia da nossa época e até deixou o link para lermos mais, e aquilo me chocou. Não achei que pudesse ser real... mas é. Link: http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/6171083.stm

Tem um capítulo, em específico, mais pro final, exatamente por causa desse debate sobre a consciência que eu achei p e r t u r b a d o r.

A trama do livro é muito bem construída, eu amei o fato de ele ser um livro único, ao mesmo tempo que eu queria que fosse uma série, só pra poder ler mais sobre os fragmentados. e eu descobri que é uma série, sim! Pooorém, ainda acho que dava pra ser um livro único, sem perder a essência! Mas nesse livro acho que o autor conseguiu desenvolver e condensar na medida certa, sem se perder, e nos dar em um livro um prato cheio para muito debate e muitos pensamentos perturbadores.

Eu me senti extremamente incomodada no final do livro, porque acho que essa é a ideia: nos cutucar, nos fazer pensar.

O livro me prendeu e eu não consegui largar enquanto não encontrei com o final. A edição está muito boa, apesar de eu não ter gostado tanto assim da capa; merecia mais!

- ...Você aprende uma coisa depois de ter vivido o tanto quanto eu vivi: as pessoas não são completamente boas nem completamente ruins. A gente passa a vida toda entrando e saindo das sombras e da luz. Neste momento, eu estou feliz por estar na luz.

Nota: 5



Sobre mim: Letícia Proença (Leeh), estudante de Medicina Veterinária na UNESP, até hoje não sabe como leva a graduação e a paixão por sites e livros lado a lado. Canceriana louca, gostaria de saber como aumentar as horas do dia para poder fazer tudo o que gosta.

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