sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A menina que roubava livros


Nome: A menina que roubava livros
Título Original: The Book Thief
Autor: Markus Zusak
Editora: Intrínseca
Páginas: 480 (ed. 2010)
Livro: Skoob | Orelha de Livro
Sinopse:
A trajetória de Liesel Meminger é contada por uma narradora mórbida, surpreendentemente simpática. Ao perceber que a pequena ladra de livros lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943. Traços de uma sobrevivente: a mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel e o irmão para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai surrupiar ao longo dos anos. O único vínculo com a família é esta obra, que ela ainda não sabe ler.

Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Alfabetizada sob vistas grossas da madrasta, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.

A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Ela assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança. Teme a dona da loja da esquina, colaboradora do Terceiro Reich. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História. A Morte, perplexa diante da violência humana, dá um tom leve e divertido à narrativa deste duro confronto entre a infância perdida e a crueldade do mundo adulto, um sucesso absoluto - e raro - de crítica e público.



Como a maioria dos sofrimentos, esse começou com uma aparente felicidade.

Reli esse livro depois de uns bons anos, e aposto que absorvi muito mais da história, mas chorei o mesmo tanto. Com dificuldade, vamos começar a resenha o 13º livro mais lido do skoob, mas o primeiro em "favoritos".


Liesel Meminger é uma garota, no início da história, de nove anos que entre os anos de 1939 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, teve três encontros inesperados com a Morte. E, logo no primeiro encontro, ela marcou a Morte de tal maneira, que esta resolveu vir nos contar sua história.

O primeiro dos terríveis encontros foi em um trem, à caminho de Molching. Liesel estava com sua mãe biológica e o seu irmão mais novo, quando o pequeno teve um ataque de tosse e morreu. Tal fato súbito levou nossa pequena protagonista a começar a encarar a dura realidade da vida. E, nesse mesmo dia, durante o enterro de seu irmão, ela comete o seu primeiro furto: um livro que o coveiro deixou cair na neve. E é a esse livro que ela se apega, a única lembrança de seu irmão, de sua família.
A mãe de Liesel é uma kommunist, como citado diversas vezes por algumas pessoas, embora Liesel não soubesse o que isso significava. Mas a Morte sabia muito bem o que era uma kommunist em meio a Alemanha de Hitler. Assim, ela é obrigada a levar seus filhos - agora só Liesel - até a Rua Himmel, número 33, a parte mais pobre da cidade de Molching.

Lá, encontramos de cara dois personagens que entram na nossa vida, assim como entram na vida de Liesel: Rosa e Hans Hubermann, um casal simples que adota crianças para criar, agora que seus dois filhos já estão mais velhos e cada um com sua vida. E antes que alguém pense que era pelo dinheiro: não, pois o dinheiro mal ajuda a por comida na mesa - algo que já era muito complicado durante o período de guerra.
Rosa é uma lavadeira e dona de casa, mas uma mulher muito difícil. A cada 10 palavras faladas, 11 são palavrões e insultos. Porém ela possui um coração muito bom, mesmo que demonstre isso através de patadas. Já Hans é um homem um tanto delicado e carinhoso, um pintor com talento de músico, que acalma as noites de Liesel com seu acordeão.

O início é muito difícil para Liesel, e ela passa meses acordando de noite e tendo pesadelos com a morte do seu irmão - então ela pega O Manual do Coveiro, o livro surrupiado, a única lembrança de sua família, e junto a um livro mórbido, tenta de alguma maneira entender e superar sua perda. As noites caminham assim até que Hans descobre o livro e ajuda Liesel aprender a ler, para poder conhecer a história de seu estranho livro.

A simplicidade e humildade de Hans é algo incrível. Ele mesmo saiu cedo da escola, mas com muito esforço, um porão de teto baixo e simples, lixas e muita tinta nas paredes, ele ensina sua filha a ler e, quando ela já aprendeu, passam as noites pós-pesadelo lendo capítulos de O Manual do Coveiro. Ele é um herói sem super-poderes.

Enquanto isso, nossa roubadora de livros faz amigos por toda a Rua Himmel, jogando futebol com os meninos, entre eles, seu melhor amigo, Rudy, um garoto muito esperto e energético, que faz de tudo para conseguir um beijo de sua Saumensch favorita. Ele acompanha Liesel pela cidade, enquanto ela entrega as roupas passadas por sua mamãe para os clientes, e também roubam comida juntos, pois com a Guerra, dinheiro, comida e emprego são as coisas mais escassas, principalmente na parte mais pobre de cidade - onde ambos moram. E ambos estão sempre com fome.

Em anos vindouros, ele seria doador de pão, não um ladrão - mais uma prova de como o ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água.

A amizade e o pseudo-namoro deles é inocente, e eles se apoiam um ao outro para tentar compreender a complexa realidade ao seu redor, com tanta pobreza, fome e dificuldade, tentando compreender a própria guerra e injustiças da vida.

Em uma das visitas aos clientes da mãe, quando estava sozinha, Liesel conhece outra personagem importante, a mulher do prefeito, que lhe apresenta sua biblioteca, o lugar onde ela se refugia e passa todas as tardes.

Livros por toda parte! Cada parede estava provida de estantes apinhadas, mas imaculadas. Mal se conseguia ver tinta. Havia toda sorte de estilos e letras diferentes nas lombadas dos livros, pretos, vermelhos, cinzentos, de toda cor. Era uma das coisas mais lindas que Liesel Meminger já tinha visto.

A mulher do prefeito é uma personagem que, assim como Liesel, eu passei por uma relação de amor-e-ódio por ela. E, claro, um pouquinho de inveja pela biblioteca dela. Contudo, é uma personagem que tem seus motivos de ser como é.

Enfim, quando Liesel está finalmente instalada em sua casa, e quando as coisas estão indo tão bem quanto o possível para uma família pobre na época da Segunda Guerra Mundial e que não são filiados ao partido do Führer, um personagem inusitado aparece na cozinha da família Hubermann. Max, um judeu, filho de um homem que serviu o exército ao lado de Hans, muitos anos atrás e que lhe salvou a vida. Agora, além de já não ser muito bem visto pelo partido nazista por um ato supostamente errado alguns anos atrás, Hans agora passa a esconder um judeu em seu porão.

Uma ideia bonita:
Uma, roubava livros.
O outro, roubava o céu.

Max se torna outro melhor amigo de Liesel, mas um melhor amigo que só ela e seus pais sabem da existência - nem mesmo o casal de filhos dos Hubermann sabem, até porque, o filho deles é um nazista nato, se possível.

Max e Liesel possuem ambos um carinho muito grande por livros - para Max, fora um livro que o levara até ali sem que fosse pego. E para Liesel, é com os livros que ela tenta achar sentido em tudo e pode fugir da dura realidade. (Uma pena que não podemos comer livros, como diria um de seus amigos). Pode-se dizer que os livros, a escrita, salvou a vida de ambos.

DIÁRIO DA MORTE: 1942
Foi um ano para ficar na história, como 79 ou 1346, para citar apenas alguns. Esqueça a foice, diabos, eu precisava era de uma vassoura ou um rodo. E precisava de umas férias.

• UMA VERDADEZINHA •
Eu não carrego gadanha nem foice.
só uso um manto preto com capuz quando faz frio.
E não tenho aquelas feições de caveira que vocês
parecem gostar de me atribuir à distância.
Quer saber a minha verdadeira aparência?
Eu ajudo. Procure um espelho enquanto eu continuo.

Uma coisa que eu gosto muito na narração da Morte, é seu humor. Ela tem um coração bom e é apaixonada por cores, mas ao mesmo tempo sabe ter um humor ácido. As descrições do céu, das cores, cheiros e sabores enquanto ela leva uma alma, é uma coisa apaixonante.
Sobre os outros personagens, eu amei cada um deles. De todo o meu coração. E sofri com eles, com toda aquela fachada de Heil Hitler por fora, mas vontade de sair cantando Imagine, dos Beatles por dentro. É uma vida muito, muito sofrida e difícil. A cena que a Liesel surta e grita que odeia o Führer, eu juro que chorei. Porque são muitos sentimentos guardados, muitas emoções reprimidas, e ela é apenas uma criança! Uma criança que tenta ao máximo possível compreender tudo.
E no meio de tanta confusão, rouba livros para lê-los a noite, pós-pesadelo, porque é a única maneira de escapar da realidade, de tentar lidar com a realidade. É doloroso. Mas a relação dela com os livros é maravilhosa - e como uma boa leitora, compreendo e identifico.

Como quem narra é a Morte, em alguns capítulos vamos ao passado, outros estamos com Max em seu caminho a Molching, e em outros vamos com Hans à guerra. Então não ficamos o tempo todo só com Liesel, e isso nos dá uma visão geral do quadro e conseguimos nos situar melhor, ver a verdadeira proporção da desgraça (sério).

Com toda a franqueza (e sei que agora estou reclamando demais), eu ainda estava me refazendo de Stalin, na Rússia. Da chamada segunda revolução — o assassinato de seu próprio povo.
E então veio Hitler.
Dizem que a guerra é a melhor amiga da morte, mas devo oferecer-lhe um ponto de vista diferente a esse respeito. Para mim, a guerra é como aquele novo chefe que espera o impossível. Olha por cima do ombro da gente e repete sem parar a mesma coisa: "Apronte logo isso, apronte logo isso." E aí a gente aumenta o trabalho. Faz o que tem que ser feito. Mas o chefe não agradece. Pede mais.

O livro não tem suspenses (a Morte dá spoilers, sério), mas a narrativa dela prende. Não é leve, mas é... única. Simples e robusta. Quase poética. O livro já é considerado um clássico por alguns, e não é a toa. O final é mais do que comovente, foi feito pra te arrancar até a última gota de lágrima. Nos pegamos num estado de incompreensão, raiva, revolta e tanta dor! Junto com a personagem, tentamos entender tudo aquilo. Mas até hoje muitas pessoas não entendem. As descrições da Morte nos deixam com um gosto ruim na boca, com incômodo, nervoso, revolta. "Por quê?", você se pega pensando, querendo gritar.

Num misto de cores, cheiros e almas, a Morte nos mostra a história de Liesel e uma parte de seu trabalho sujo durante a guerra. Uma época em que esteve muito ocupada - e não se sente nada feliz com isso. Mas é um livro lindo, cheio de lições e uma bela crítica. A própria narradora nos ensina várias, conforme conta a história da pequena roubadora de livros.

Zusak merece que esse livro se torne um clássico. Personagens fortes, de grande personalidade cada um, verdadeiros lutadores, todos, cada qual em sua maneira. E dentre todos eles, só um personagem fica. A Morte. Porque como diria ela... Os humanos têm o bom senso de morrer.

A Editora Intrínseca está mais do que de parabéns com essa edição. Eu tenho o mais antigo, mas comprei a edição nova esses dias. A capa permanece (e convenhamos que é perfeita), mas por dentro, nas primeiras páginas, tem uma imagem do filme e é LINDO. De verdade. Além de todos os outros cuidados, claro. A revisão está impecável. (E apesar de gostar da capa do filme, essa ainda continua sendo a minha preferida).

E mais:

Os seres humanos me assombram.

Nota: ★★★★★ ♥



Sobre mim: Letícia Proença (Leeh), 19 anos, estudante de Medicina Veterinária em Botucatu, até hoje não sabe como leva a graduação e a paixão por sites e livros lado a lado. Canceriana louca, gostaria de saber como aumentar as horas do dia para poder fazer tudo o que gosta.

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