segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma Garrafa no Mar de Gaza


Nome: Uma Garrafa no Mar de Gaza
Autora: Valérie Zenatti
Editora: Seguinte
Livro: Skoob | Site
Sinopse:
Prezado você,
Se um dia ler esta acrta, saberá algumas coisas sobre mim. Você conhecerá meu nome, minha idade, a profissão de meu pai, o nome de minha mlehor amiga e até mesmo o sobrenome do meu professor de história.
De minha parte, ignoro tudo sobre você.
Imagino que tenha longos cabelos escuros, olhos castanhos e - não sei por quê - um ar sonhador.
Imagino que você fique triste com frequência.
Imagino que você tenha a mesma idade que eu, mas não sei se, aos dezessete anos, você se sente muito velha ou muito jovem.
Imagino que as batidas de seu coração às vezes se acelerem, por quem?
Imagino que você se pergunte, como eu, quem você será em dez anos, e que você não consiga ver nada com muita clareza.
Sinto muito medo e esperança ao escrever para você. Não tenho certeza de estar conseguindo dizer o que quero.
Talvez você rasgue essa carta. Talvez você só sinta ódio ao ouvir o nome "Israel". Talvez você zombe de mim. Ou talvez você simplesmente não exista.
Mas, se esta carta tiver a sorte de encontrar você, se você tiver a paciência de lê-la até o fim, se você pensar como eu, que precisamos aprender a nos conhecer, por mil bons motivos, e que queremos construir em meio à paz porque somos jovens, então me responda.


"Estes são dias de trevas, de tristeza e de horror. O medo voltou."

Ambientada em Israel e Faixa de Gaza, no ano de 2003, Uma Garrafa no Mar de Gaza é um livro que vai muito além do que se pode esperar de suas poucas 122 páginas. É uma história que mostra a nós, brasileiros, uma realidade um tanto difícil de acreditar, de aceitar que está realmente sendo vivida neste instante, em algum lugar desse nosso pequeno mundo.

Tal é uma menina israelense de dezessete anos. Sonhadora e possuidora de uma alma pura e inocente, vive com os pais e um irmão mais velho; seu pai é um historiador que conhece tudo sobre Jerusalém e é como um heroi para nossa protagonista, enquanto seu irmão é um soldado israelense que trabalha dentro de Gaza.
Apesar de morar em Israel e conviver diariamente com os ataques dos homens bomba à sua cidade, mesmo estudando com garotos e garotas que perderam braços e pernas em ataques, Tal ainda acredita na paz, na bondade do próximo. Mesmo com o desespero de nunca ter a certeza de que o irmão voltará para casa.

"Algumas pessoas veem o mal em toda parte, você vê esperança em toda parte."

Mas é depois de um ataque à um café perto de sua casa, quando uma moça morre junto do pai, no dia anterior ao casamento, que Tal se vê abalada; toda a sua esperança e crença chocadas com o acontecimento. A partir de então, ela resolve começar a escrever um diário sobre como se sente - coisas que não comenta nem mesmo com sua melhor amiga, que já começa a perceber a distância da amiga, nem com o seu namorado, Ouri.
Assim, escrevendo um dia em uma aula, Tal resolve mandar uma carta, num ato desesperado de esperança, para alguém do outro lado. Será que realmente existia alguém que pensasse como ela, que não aguentava mais, as mortes e mais mortes todos os dias?

"Eu me pergunto se a lei religiosa dedicou algum capítulo à conduta que se deve manter em casos de desespero."

Naim/Gazaman é um palestino que vive confinado na estreita Faixa de Gaza. Ele é quem encontra a garrafa de Tal, e a partir de então, eles passam a trocar e-mails.
No início, Naim se mostra relutante a se abrir, utilizando sarcasmo e irônia, atacando Tal com palavras sempre que possível, tratando-a como uma criança estúpida e inocente, que não vê o que está debaixo do próprio nariz. Mas, ao decorrer do livro, vemos que ele só está tentando se proteger, proteger seus pensamentos.

"Não existe mais o singular, eu, tu, ele, ela, só um plural: os palestinos. Os pobres palestinos. Ou os malvados palestinos, talvez. (...) Carregamos todo o nosso povo nas costas, isso pesa, pesa, pesa, esmaga, dá vontade de fechar os olhos."

O livro é narrado em primeira pessoa, os capítulos variando entre Tal e Naim. Mas sempre são as coisas que eles escrevem: Tal em seu diário, Naim em papéis que logo são queimados, rasgados, jogados pela privada. Além disso, há também os e-mails, onde eles mostram como é a realidade de cada um e vão aos poucos se conhecendo.

Não considero o livro um romance, apesar de Tal realmente se apegar ao Gazaman (nome do e-mail de Naim). É mais que isso, muito mais. É uma amostra de uma realidade da qual não temos consciência, ou melhor, temos inconsciência. Afinal, vemos todos os dias na televisão sobre os ataques e mortes, mas tudo parece tão distante.
A maneira como a situação toda é apresentada nos permite ter noção do que cada um passa. Duas pessoas que moram tão perto e vivem uma infeliz realidade parecida, mas que não têm contato nenhum, que mal conseguem imaginar o que o outro faz em seu tempo livre.

Somos colocados dentro de Israel, dentro da Faixa de Gaza, vivendo com a agonia de não saber se seu irmão voltará para casa inteiro hoje, se amanhã não será sua escola que irá explodir, com os toques de recolher gritando aos ouvidos, soldades opressores e vizinhos e familiares cheios de ódio, vivendo por, pelo e para o ódio por outro povo. Um ódio sem fim, de ambos os lados, que só leva à destruição de todos, sem vencedores.

"É estúpido, é assim, é a guerra. A guerra imbecil em que israelenses matam palestinos, plaestinos matam israelenses, e lá vamos nós, começamos uma nova rodada, mas quem mesmo começou? Eles? Nós? Você? Eu? Ninguém se lembra. Memória curta, lapsos de memória, amnésia, hipocrisia, má-fé, agora vamos recomeçar só para ver quem mata mais, quem é o mais forte."

Os personagens são bem construídos. Novos e sofridos. Como Tal é quem mais narra no começo, vamos conhecendo Naim mais ao longo do livro - por isso não falei tanto dele -, mas ambos são muito bem construídos, cada um com sua realidade, suas crenças, suas esperanças. Tão iguais, mas tão diferentes.
Com eles, fui levada à um lugar que eu realmente não compreendia a real situação vivida. Vi sonhos e esperanças destruídos com bombas e leis rígidas, marcados pelo ódio. Vi sangue em cada esquina, o medo estampado no rosto de cada um. Afinal, em um momento você está falando com a pessoa, e, no próximo, tudo pode ter ido pelos ares em uma explosão sem sentido.
Os dois lados são colocados na mesa, mostrando que ninguém está certo. Que muitas pessoas acreditam, sim, na paz e numa vida tranquila, mas que são privadas disso por conta de governos que não se entendem.

"- Você não fica de saco cheio de acreditar nisso, papai?
- No quê?
- Na paz entre os palestinos e a gente. Deve fazer uns trinta anos que você luta por isso, e a coisa vai de mal a pior!
- Trinta anos não é muita coisa para a história. Você verá, quando for realmente velha!"

Uma Garrafa no Mar de Gaza é como um grito silencioso de socorro, uma garrafa de esperança num mar de sangue. Emocionante, tocante, quem sabe até desesperador. São 122 páginas cheias de um misto turbulento de emoções, que mexe e remexe conosco e com os personagens, sem perder o ritmo. Com uma linguagem simples e da melhor maneira possível, Valérie nos mostra a coisa com outros olhos. É o tipo de livro que todo mundo deveria ler, sem exceções. Para parar e refletir, não só sobre o que acontece lá, mas até sobre nossos próprios atos. Um livro para ser lido e relido, como eu fiz(!)

Com um final que realmente me surpreendeu, recomendo que leiam o final ao som de Pais e Filhos, da nossa queridíssima Legião Urbana! Li o último capítulo sem querer ouvindo a música, que começou a tocar no TVZ e... Meu Deus, lágrimas rolaram. "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" nunca fez tão sentido.

Tem o filme - e por um acaso, a capa do livro é a do filme. Não é a minha capa favorita, mas acho que de tanto olhar, já acostumei. Quando eu ver o filme, venho vontar pra vocês o que eu achei :)

Quanto ao trabalho da editora, bom, já falei da capa, de resto, eu não achei problemas de revisão nem nada. Tudo muito lindinho! Gosto do material do livro, aquela folha mais grossa que todo mundo gosta... A única coisa é que alguns parágrafos são realmente grandes, mas por outro lado, percebi que para o livro devemos considerar isso normal, como um fluxo de pensamentos.

E agora, só para finalizar: "Não pode existir Guerra Santa. Isso é uma contradição em termos" como diria Renato Russo! Agora vem a pergunta... Será que as pessoas param para pensar nisso? Em todo o sangue derramado: do povo deles, do povo inimigo... Estamos no século XXI. Já não seria hora de resolver tudo isso? Bom, vou parar por aqui e deixar vocês refletindo e espero que vocês leiam esse livro. De coração, vale muitíssimo a pena.

Um dia vocês, nós, perceberemos que, na violência, não há vencedor possível, que esta é uma guerra de perdedores. Um desperdício.

Nota:  ★★★★★ ♥

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